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Surf Em Jeffrey’s Bay: Análise Do Pico

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Surf Em Jeffrey’s Bay: Análise Do Pico

Hoje chegamos ao Continente Africano, e o pico da vez na nossa série Análise Do Pico é a famosa Jeffrey’s Bay, na África Do Sul.

Há alguns meses temos postado artigos de diversos picos de surf ao redor do mundo. Começamos com algumas ondas lendárias do sul do Brasil, passamos por Saquarema, seguimos desbravando a América do Sul com Lobitos, no Peru e assim por diante. Desta vez, cruzamos o oceano atlântico e chegamos à Jeffrey’s Bay, a lendária baía localizada na África Do Sul. Para alguns, esta é considerada a melhor direita do planeta (inclusive para este que vos escreve) e hoje vamos entender o porquê.

Os Primórdios

A cidade recebeu este nome por causa do Capitão Jeffrey, que navegou em seu navio de carga pela Costa Leste da África do Sul em expedições comerciais nos anos 1840. Durante uma dessas viagens, uma epidemia de escorbuto eclodiu a bordo de seu navio. Dessa forma, ele foi forçado a aportar sua embarcação naquela baía e logo percebeu o potencial do local onde estava. Posteriormente, ele construiu um porto primitivo no que hoje é a praia principal de J-Bay. Passado algum tempo, Jeffrey ergueu a primeira casa no local, na verdade uma mansão de dois andares, que sempre foi conhecida como “A Casa Branca”. Alguns anos mais tarde, em 1850, sua família se tornou a primeira família branca a se estabelecer na cidade.

Passados mais de 100 anos da chegada do Capitão Jeffrey, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, J-Bay era conhecida como um ponto de encontro hippie, onde a comunidade do surf se originou. O local é hoje um dos principais destinos turísticos do país, certamente por conta das suas perfeitas ondas, muito procuradas por surfistas de todo o mundo.

A Cidade

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A pequena cidade, distante 90km do aeroporto de Port Elizabeth, tem hoje pouco mais de 27 mil habitantes, e vive basicamente do turismo, comércio e serviços. Na baía misturam-se as correntes quentes procedentes do Oceano Índico com as frias vindas do Atlântico, criando condições marítimas muito peculiares, ótimas para a pesca, atividade bastante comum por lá.

Jeffrey’s Bay tem a maioria da sua população e estrutura situadas ao longo de sua principal rua, a Da Gama Road. Há diversas excelentes opções de hospedagem e alimentação na cidade, com custo-benefício muito bom. Destaque especial para o restaurante Nina’s, que fica bem atrás do principal pico de surf de J-Bay. Além disso, ao final da Da Gama Road existe um outlet onde é possível comprar equipamentos de surf, vestuário e souvenirs por valores melhores do que nas lojas oficiais das principais marcas de surf. Recomenda-se também uma visita ao Museu Do Surf, que fica dentro da loja da Quiksilver, na rua principal.

Bungee Jump e Safari

Para quem gosta de adrenalina e não tem medo de altura, uma opção imperdível e relativamente próxima a Jeffrey’s, é saltar do terceiro bungee jump mais alto do mundo. O Face Adrenalin fica na ponte Bloukrans Bridge, a pouco mais de 125km de J-Bay, e é uma atração muito visitada por surfistas quando as ondas estão pequenas na baía.

Além disso, existem opções fantásticas para quem quiser ver animais selvagens em seu habitat natural. Desde os mais simples, nos quais se pode dirigir com seu próprio veículo, como o Addo Elephant Park, quanto os chamados Game Reserves mais sofisticados. Exemplo disso é o Kragga Kamma Game Park, excelente opção próxima à Port Elizabeth, onde é possível passar algumas noites e vivenciar verdadeiros safáris acompanhados de guias locais, sempre na busca dos BIG 5. Estes são os cinco mamíferos selvagens de grande porte mais difíceis de serem caçados pelo homem. A expressão ainda é usada nos safáris de observação quando se referem à fauna selvagem da região da savana.
Este grupo é formado pelo leão, elefante africano, búfalo africano, leopardo e rinoceronte.

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Addo Elephant Park

Boneyards e Supertubes

A onda de J-bay é formada por diversas seções. Há lendas que alguns surfistas já conseguiram percorrer todas elas em apenas uma onda, o que é bastante improvável de acontecer. Ela começa de fato na seção de Boneyards, onde ficam sentados a maioria dos locais do pico. Em seguida começa a mais longa e perfeita seção, chamada Supertubes. Na sequencia vêm Impossibles, Coins, Tubes, Point e, por fim,  o beachbreak de Albatroz.

Sem dúvida, Supertubes é a razão pela qual as pessoas vão a Jeffrey’s Bay. É uma pista perfeita, de alta velocidade, que permite que você surfe mais rápido do que nunca. As paredes perfeitas são um convite para as mais diversas manobras, todas as quais você seja capaz de executar.

Por serem tão perfeitas, são também muito disputadas. Não é raro contar mais de 80 pessoas na água só em Supertubes, entre surfistas locais e visitantes. Sendo assim, paciência e perseverança são provavelmente as chaves do sucesso em J-Bay. Por ser uma onda longa, você pode escolher onde sentar e esperar. Certamente, haverá muitas oportunidades de pegar boas ondas, mas isso pode levar um tempo até conseguir entender o line-up. Um dica é ficar bastante atento àqueles surfistas que parecem que não vão conseguir passar a seção da onda, assim você poderá surfar muito mais, aproveitando as “sobras”, que são excelentes.

Impossibles, Coins e Tubes

Impossibles é praticamente isso – impossível. Esta seção é muito tubular, é basicamente o final de Supertubes, e na maioria dos casos os surfistas realmente não conseguem passar por ela. Ver Impossibles quebrando grande, maior que dois metros, poder ser assustador. O tubo é extremamente largo e cheio de bolhas, por conta da proximidade com as pedras. Se você conseguir completar um desses tubos, sinta-se um privilegiado, pois são poucos os que conseguem.

Coins é a próxima sessão, que aliás é a mais curta de todas. Mas ser curta não quer dizer que seja ruim, o negócio ali são os tubos. Bastante volúvel, quando ganha vida, é um canudo perfeito, mais parecendo um slab indonésio com água gelada. Logo abaixo vem Tubes, que é uma onda tubular e curta, assim como Coins. Ela é a seção favorita de Kelly Slater, e pouquíssima gente surfa por ali, pois quando Tubes está quebrando bom, Supertubes está clássico.

O Final Da Onda

Descendo a onda em direção ao seu final, chegamos ao famoso Point. Ela é a onda mais amigável da região, fácil de surfar e um lugar onde crianças e longboarders se divertem muito. Geralmente um pouco menor do que as seções anteriores, é uma ótima introdução à Baía de Jeffrey’s.

Por fim, Albatroz. Esta é a última seção, onde a barreira de pedras termina e é possível sair do mar diretamente na praia, sem pedras no caminho. É uma onda instável e menos perfeita, e pouca gente realmente surfa por ali, visto que quando está bom, geralmente há ondas melhores quebrando em volta.

Melhores Condições

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As melhores ondulações para J-Bay vêm de tempestades que passam muito perto da costa. No inverno, a alta pressão do Atlântico Sul se move para o norte, permitindo que as tempestades do Atlântico Sul / Oceano Antártico passem mais perto da África do Sul. Essas tempestades podem fornecer swells ideais de sudoeste e sul em Jeffrey’s Bay. No verão, a alta pressão do oceano desvia as possíveis tempestades para alto mar, bloqueando e dificultando o desenvolvimento de ondulações para o pico.

Quanto mais influência de sul o swell tiver, melhor. Quando mais de oeste, pior. Visto que as ondas quebram para dentro de uma baía, as ondulações com mais oeste do que sul podem acabar passando por fora. Sendo assim, a ondulação ideal deve ser de sul/sudoeste, preferencialmente com ângulo entre 197 e 150 graus.

Uma coisa é certa, J-Bay aceita grandes ondulações muito bem. Aliás, para quebrar clássica, o tamanho ideal da ondulação é entre 8 e 12 pés, pois normalmente as ondas irão quebram com pouco mais da metade deste tamanho no pico.

Ventos

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As mesmas tempestades que trazem as ondulações para Jeffrey’s Bay também trazem fortes ventos de sudoeste. O promontório de Cape Saint Francis, que fica próximo a J-Bay, protege o lado oeste da baía – onde o pico está localizado – desses ventos do sudoeste. As montanhas (conhecidas como Bergs) e os vales no interior do país ajudam a redirecionar o vento para uma direção terral, encarando o swell de frente depois que ele faz a curva para dentro da baía. Este é de fato o vento ideal para o pico.

Outra direção de vento muito comum é o norte pré-frontal, conhecido localmente como ventos de Berg (NE/N/NO). Esses ventos resultam em um “ladal” (Devil Wind) em J-Bay, deixando as ondas um pouco repicadas e difíceis de surfar, pois eles freiam a prancha e o surfista. O lado bom é que os ventos de Berg batem terral em diversos outros picos da região.

Em suma, as condições perfeitas para que as famosas direitas quebrem clássicas são estas acima, combinadas com uma meia maré enchendo e período médio para longo, entre 12 e 18 segundos. Quando for surfar pela primeira vez por lá, prefira usar botinhas para proteger seus pés na hora de entrar e sair do mar. Existe um local específico onde os surfistas entram, caminhando por cima das pedras cheias de mariscos e cracas. Há também outra opção que é entrar remando por trás do pico de Boneyards, sem tocar na pedras, no entanto a remada é longa. Para sair há um “key hole”, que nada mais é que uma fenda entre as pedras. Siga os surfistas mais experientes na hora de tentar acertar esse buraco, pois é bem estreito e se passar, vai ter que sair por cima das pedras irregulares.

Pranchas Ideais

Uma onda rápida e de altíssima performance exige uma prancha que seja igualmente rápida e responsiva. Levando-se em consideração a seção de Supertubes, o surfista irá encontrar paredes rápidas e íngremes, além de tubos ultra velozes. A prancha perfeita para lá deve ser rápida, com bom single concave, para poder acompanhar a velocidade da onda. É necessário também um rocker mais alto de bico, que vai ajudar a prancha a se encaixar na curva da onda, para não embicar nos drops e também atacar as partes críticas. Opte sempre por pranchas de PU e não de EPS, pois o vento forte em J-Bay acaba prejudicando a performance de pranchas muito leves. Para finalizar, use quilhas mais esticadas, que fazem curvas mais alongadas como a FCS Carver e a Futures Jordy Smith.

DHD Mick Fanning JBay

Sharp Eye #77

Al Merrick – Happy

Slater Designs – Gamma LFT

Momentos Históricos

Sem dúvida, houve muitos momentos históricos do surf em Jeffrey’s Bay. A maioria de nós tem grandes lembranças de lá. Seja aquela final épica entre Kelly Slater e Andy Irons em 2005, seja o episódio de Mick Fanning com o tubarão ou as apresentações históricas de Filipe Toledo nos últimos três anos. Escolhemos dois deste momentos que são muito marcantes, como a primeira onda surfada pelo mestre Tom Curren por lá e a bizarra performance de Toledo no quarto round do J-Bay Corona Open de 2017, contra Julian Wilson e Jordy Smith.

Acredito que com tantas descrições e imagens alucinantes do pico, provavelmente você se interessou muito em ir conhecer tudo isso de perto, não é mesmo? Se sim, convide aquele seu amigo fissurado que vai ficar pilhado em fazer esta viagem com você e mostre essa postagem para ele, quem sabe em breve vocês poderão estar realizando seu sonho de surfar a melhor direita do mundo!

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Photo by Kelly Cestari/WSL/REX/Shutterstock – Corona Open J-Bay, Eastern Cape, South Africa – 18 Jul 2017

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O autor do texto em ângulo raro de Supertubes. Photo: Alan Van Gysen

 

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